Depois das breves catequeses publicadas aqui nas semanas anteriores sobre a fé que professamos para nos ajudar a preparar a renovação das promessas batismais na próxima Vigília Pascal, convido-vos hoje a meditar no Mistério da Cruz.

Dais-vos conta, certamente, de que a cruz está fora de moda. Pouco a pouco, os crucifixos vão desaparecendo dos lares, das escolas, das sepulturas, e até em algumas igrejas foram substituídos por esculturas que lembram vagamente uma cruz mas que evitam a sua elementar simplicidade. O sinal da cruz tornou-se incómodo e deixou de ser sinal de vitória e de bênção para esta sociedade que foi moldada pelo cristianismo, mas que agora, em largos sectores, está renegando a sua identidade. Mas também dentro da Igreja muitos cristãos, mesmo praticantes, não têm as suas vidas iluminadas pelo mistério da Cruz do Senhor. A cruz, o mais horrível instrumento de tortura, é apenas sinal de sofrimento, de morte e de destruição para quem não se encontrou ainda com Jesus Ressuscitado; mas para nós cristãos a cruz é o mais eloquente sinal do amor de Deus e da nossa salvação. Porque Deus, no Seu amor, nos vai ensinando ao longo da vida, todos temos uma cruz: pessoas e situações que nos são insuportáveis, sofrimentos, doenças, acontecimentos que inviabilizam os nossos projetos, dificuldades e carências de toda a espécie, tudo aquilo que, se pudéssemos, evitaríamos ou afastaríamos de nós, tudo isso pode ser a nossa cruz no dia-a-dia.

Perante a cruz, a atitude mais espontânea é evitá-la ou fugir dela. Para isso, de tudo se lança mão e usa-se também a religiosidade pedindo milagres, fazendo promessas, correndo de um santuário para outro ou buscando soluções em astrólogos e curandeiros. Pede-se a Deus que faça a nossa vontade, que resolva os nossos problemas e nos dê uma felicidade imediata, uma vida cor-de-rosa. E se a cruz não desaparece, resta uma atitude de resignação passiva e desconsolada. Há também quem se revolte e blasfeme: “se Deus é bom, porque permite o sofrimento”? “Se é todo-poderoso, porque não resolve de vez os problemas e injustiças, porque não acaba com o mal”? Entre a resignação passiva e a revolta existe um caminho muito estreito que é a atitude do verdadeiro cristão: a aceitação humilde e confiante da vontade de Deus, sem duvidar do Seu amor, porque sabemos que tudo concorre para o bem daqueles que O amam, (Rom.8,28) preparando-os para a Vida Eterna. Se acreditamos em Jesus Cristo vencedor da morte, se esperamos o cumprimento das Suas promessas e O amamos, aprendemos a aceitar a nossa cruz, pois sem ela não podemos ser Seus discípulos. Com o discernimento próprio dos adultos nós não identificamos agradável e bom, e desagradável e mau. Há coisas muito agradáveis que são perigosas, e coisas amargas que são muito boas. A cruz é amarga, mas vemo-la e aceitamo-la na fé como uma graça e fonte de bênção. Sabemos que, se de um lado é escuridão e morte, do outro é vida e glória. A fé permite-nos vislumbrar o outro lado da cruz, e aceitá-la.

Diz S. Paulo na 1ª Carta aos Coríntios que, para os pagãos, a cruz é escândalo e loucura, mas para nós cristãos é a revelação máxima do amor, do poder e da sabedoria de Deus. Na Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo levantada pelos crimes de toda a humanidade vemos a destruição que o pecado provoca, e vemos também resplandecer a glória, a sabedoria e o amor de Deus para connosco. Vemos que Deus pode com a nossa liberdade, sabe tirar o bem do mal e a vida da morte, sabe escrever direito por linhas tortas. O Cristianismo é a revelação e o anúncio do mistério da Cruz: Deus amou de tal modo o mundo que lhe deu o Seu Filho Unigénito e O entregou à morte para que, morrendo, destruísse a morte e ressuscitando, abrisse para toda a humanidade as portas da Vida Eterna. (Cf. Jo.3,16 e 1Jo.4,9) A Cruz é a passagem pela qual, com Cristo, passamos deste mundo para o Pai. Se, com os olhos da fé contemplamos Jesus crucificado, não podemos duvidar do amor de Deus por nós. A Cruz de Jesus ilumina a nossa cruz e vemos que, por meio dela, Deus nos chama à Sua amizade. Os dois traços da cruz marcam um ponto, o ponto de encontro em que o Senhor nos espera para nos purificar e manifestar o Seu amor.

Na Sagrada Escritura, o Mistério da Cruz está prefigurado na árvore da vida do paraíso cujo fruto dá Vida Eterna a quem o come, na escada de Jacob que liga a terra ao céu, na coluna de nuvem tenebrosa de um lado e luminosa do outro que guiou no deserto o povo de Israel, no madeiro que tornou doces as águas amargas, na vara de Moisés e no poste que ele levantou no deserto com a serpente de bronze para curar os hebreus mordidos pelas serpentes venenosas, e em tantas outras imagens. Ela é também o carro de fogo, descrito pelo profeta Ezequiel, que se dirige simultaneamente na direção dos quatro pontos cardeais e no centro do qual aparece vitorioso o Filho do Homem. A Cruz é a chave de toda a Revelação e o pleno cumprimento da Lei. Ao contemplarmos Jesus de mãos e pés cravados, de cabeça coroada de espinhos e de coração rasgado, abandonando-Se inteiramente nas mãos do Pai, indefeso perante o mundo e de braços abertos para acolher a todos, vemos claramente o que é amar a Deus sobre todas as coisas, com todo o coração, com toda a alma e com todas as forças, e amar ao próximo.

Professar a fé cristã é proclamar que na Cruz de Jesus Cristo morto e ressuscitado, único Redentor da humanidade, está a verdadeira religião, na qual Deus e o Homem se encontram numa aliança definitiva. Levando-nos com Ele como membros do Seu Corpo, Jesus subiu glorioso ao céu depois de ter descido aos infernos para levar, também aí, a boa notícia da Sua vitória, a mesma boa notícia que a Igreja tem a missão de anunciar até aos confins da terra, enquanto o mundo durar. N’Ele se cumpriram todas as promessas de Deus ao Seu povo, n’Ele encontram plena realização os anseios mais profundos do coração humano, n’Ele se manifesta o homem novo plenamente liberto de si mesmo e das escravidões do mundo, da carne e do demónio e inteiramente obediente ao Pai. Por tudo isto, o mistério da Cruz é para nós o compêndio e o resumo da fé e da vida cristãs.

Antes de nos dar o Batismo, a Igreja marcou-nos com o sinal da Cruz e é com esse sinal que nos benzemos e somos abençoados. Reparai como um gesto tão simples e palavras tão breves resumem todo o cristianismo: com as palavras “em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo” proclamamos o mistério de Deus uno e trino; com o gesto vertical da cruz, de cima para baixo, significamos o mistério da Encarnação do Verbo de Deus no seio da Virgem Maria; e com o gesto transversal, da esquerda para a direita, o mistério da Redenção pelo qual recebemos o Espírito Santo que nos faz passar da condenação para a bem-aventurança.

Não te envergonhes da Cruz do Senhor! Nela resplandece o amor de Deus, nela está toda a nossa glória. Aceita com humildade e confiança a tua cruz. Abraça-a em cada dia e aprende a mortificar e a crucificar o “homem velho” que te impede de viver e de cultivar a liberdade própria dos filhos de Deus e a vida do “homem novo”. Coloca um crucifixo em tua casa, num lugar de honra na sala ou no quarto, para te servir de espelho moral e te ajudar a não duvidar do amor de Deus e a praticar a caridade, e também para te lembrares de fazer oração em família ou individualmente. Faz o sinal da cruz ao deitar e ao levantar e também durante o dia ao iniciar o trabalho e as refeições para que tudo o que fizeres seja em nome do Senhor Jesus, dando graças, por Ele, a Deus Pai. (Cf.Ef.5,20) Na Sexta-feira Santa participa na Comemoração da Paixão, e ao adorares a Cruz do Senhor, pede-Lhe a graça de, unido a Ele, levares no teu corpo a Sua morte e ressurreição, ou seja, a graça de viveres morto para o pecado e vivo para Deus, morto para o egoísmo e vivo para servir os irmãos.

+J. Marcos